Cynefin: aprenda a identificar o ambiente da sua empresa

Entenda o framework Cynefin e como esse modelo pode ajudar você e seu time a tomar melhores decisões, das simples até as mais complexas.Cynefin: aprenda a identificar o ambiente da sua empresa

O que é esse tal de modelo Cynefin? Alguns chamam de modelo, outros de quadro ou até framework Cynefin para identificar ambientes organizacionais. Ainda vejo disputas bobas pela nomenclatura mais adequada, sendo que a funcionalidade ou utilidade, pouca gente entende.

É até engraçado! Mas a ideia desse artigo é justamente esclarecer essas dúvidas e te apresentar, de um jeito simples, como o Cynefin pode ser útil para a sua empresa.



Para não perder a piada e seguir a brincadeira de quem gosta de uma disputa de ego entre saber mais ou estar “mais” correto, Cynefin se pronuncia “que-né-vin”, pelo menos para quem não fala galês, como diz o Dave Snowden, que desenvolveu a coisa toda.

Esse modelo tem ajudado muito todo o time aqui do Campus a compreender as diversas realidades simultâneas que nossas equipes vivem e, assim, conseguimos identificar a melhor forma de agir frente a cada desafio. Recomendo este outro artigo se você quiser entender mais sobre como iniciamos nossa transformação digital aqui no Campus Inc.

Cynefin e seu propósito

Nessa parte inicial do artigo me desafiei a escrever de um jeito que você navegue pelo framework Cynefin enquanto realiza a leitura, sentindo na pele o impacto causado durante a mobilidade dentro desse modelo. Vamos ver se consigo! :)

Gostaria de iniciar nosso bate-papo com uma pergunta simples:

Você já parou para pensar que seu time enfrenta situações com contextos diferentes, todos os dias?

Sim, isso é até meio óbvio! É quase uma relação de causa e efeito básica. Mas é fato que mesmos times com trabalhos repetitivos enfrentam diversas situações com contextos completamente diferentes. 

Então vamos aprofundar nossa reflexão com uma pergunta um pouco mais complicada:

Será que essas situações apresentam desafios com complexidades parecidas, ou são completamente diferentes?

Epa! Essa já não é uma pergunta tão trivial. Mas quando analisamos um pouco mais a fundo, conseguimos identificar uma possível resposta comum: provavelmente as complexidades que nossos times enfrentam variam de situação para situação; ora são coisas simples, ora é caos total.

Gostaria de continuar nesse mergulho reflexivo, topa? Então bora! Agora uma pergunta um tanto mais complexa:



Em relação ao comportamento reativo e tomada de decisões de seu time em diversos contextos, qual seria a melhor forma de agir?

Nossa! Agora, como fazer para identificar qual processo de tomada de decisão melhor encaixa ao contexto que sua equipe está vivendo naquele momento? Essa é uma pergunta sem uma resposta simples ou conhecida, é preciso criar um raciocínio específico para responder, e provavelmente não será replicável para diferentes times.

Bom, essas perguntas e sensações geradas em relação à complexidade das respostas nos ajuda a compreender a mobilidade dentro dos 5 domínios existentes no modelo Cynefin - Simples, Complicado, Complexo, Caótico e Desordem. Vamos falar deles ja já, mas antes precisamos deixar claro qual o propósito desse modelo. 

Cynefin: categorização versus sensemaking

Vamos começar colocando o “dedo na ferida” logo de cara! rs 

Este framework não é uma matriz 2 x 2 de categorização! Muitos consultores ainda utilizam o framework para categorizar os ambientes organizacionais em um dos quadrantes (Simples, Complicado, Complexo, Caótico e Desordem). Como diria Galvão Bueno, pode isso Arnaldo? Não, está errado!

Para não sair cuspindo regra, como ainda é feito em algumas instituições de ensino corporativo e de gestão, vamos desconstruir essa lógica e aprender juntos?!

Bem, se atualmente vivemos num mundo VICA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) onde o ritmo das mudanças é frenético, como seria possível categorizar ambientes organizacionais de forma estática?  

Até é possível analisar recortes da realidade, mas não com o objetivo que buscamos no framework Cynefin. Modelos tradicionais, normalmente, realizavam análises de recortes estáticos, como muitos economistas fazem para analisar contextos com uma infinidade de variáveis.

Nesse caso, eles simplificam essa análise com o conceito “ceteris paribus”, no qual se mantém algumas variáveis constantes, enquanto outras são alteradas pontualmente para identificar o impacto delas sobre o todo.

No entanto, o mercado de hoje cobra mais adaptatividade do que previsibilidade. O que queremos é, justamente, compreender qual a melhor forma de agir quando todas as variáveis estão agindo simultaneamente. Ou seja, queremos entender todas as conexões existentes para ter maior consciência situacional e saber como agir em situações de alta complexidade.

O propósito do Cynefin não é ser uma matriz de categorização, onde o framework é passivo e você apenas posiciona os objetos em análise em algum quadrante ou categoria. Ao invés disso, o Cynefin é um framework de “sensemaking”, no qual a percepção da realidade é fluída e primordial; o framework é algo reativo a essa percepção, nos auxiliando a definir como tomar decisões mais adequadas ao contexto vivenciado naquele momento. 

“Tudo é sobre o fluxo, e não sobre uma avaliação estática.” - Dave Snowden

Cynefin e seus 5 domínios

Vamos entender um pouco mais sobre cada um dos 5 domínios do framework Cynefin:

  • Simples
  • Complicado
  • Complexo
  • Caótico
  • Desordem

Lembrando que nenhum domínio é melhor ou pior que o outro, todos eles têm seu valor e representam uma maneira diferente de agir frente às situações que você enfrentar na sua empresa. Vamos entender com mais detalhes cada um?

cynefin

Estrutura do framework Cynefin - Fonte: Time Campus Inc

Simples

O domínio simples é ordenado, onde a relação causa e efeito existe, é perceptível e previsível. Ou seja, existe uma resposta certa para aquela situação e você consegue prever qual o impacto caso determinado movimento aconteça.

Em momentos que temos ambientes organizacionais simples conseguimos agir aplicando procedimentos padrão, checklists e até utilizar melhores práticas.


Esses ambientes são tão cartesianos que não exigem que o time tenha conhecimento especializado sobre o tema, pois será necessário a repetição de ações já conhecidas

Complicado

O domínio complicado também é ordenado, com a relação causa e efeito existindo e sendo perceptível, porém, muitas vezes, essa relação não é previsível e muito menos reprodutível.

Ou seja, temos algumas respostas possíveis para a situação, mas não sabemos qual delas seria a melhor opção e não conseguimos antecipar qual o impacto específico que determinada ação terá.

Por ser um ambiente onde tarefas repetitivas não se adequam tão bem, não é possível aplicar melhores práticas, mas sim ter um leque de boas práticas que podem ser selecionadas como melhor forma de agir dependendo da situação.

Nesses ambientes é interessante ter equipes com maior conhecimento técnico para conseguir não apenas ordenar e categorizar respostas de um checklist, mas sim conseguir analisar a situação e identificar a melhor forma de agir.

Complexidade

Com a complexidade, a causalidade termina, aquela relação causa e efeito que nos dava possibilidades conhecidas de respostas já não existe. Nesse domínio você nem sabe ainda o que não é conhecido e precisa dar maior liberdade para inovação e pensamentos “fora da caixinha”. Aqui é onde a inovação acontece!

Após o acontecimento a causalidade é desconhecida, mas ainda pode ter coerência que nos dá um “norte lógico” de ação. Assim, uma vez que não conhecemos como agir é preciso fazer experimentos e analisar seus impactos práticos.

Os experimentos que falham nos ajudam a descartar hipóteses e aqueles bem-sucedidos podem nos ajudar a encontrar uma boa prática. Dessa forma pensamentos e comportamentos evoluem e novos padrões começam a emergir dos experimentos, que ajudam a encontrar uma ordem emergente.

Caos

No caos, buscar a resposta correta é inútil! Pois a causalidade não é perceptível e nem coerente. Esse é um domínio que nos deixa cego, sem ter previsibilidade ou maneiras de mensuração alguma, e por isso ele cobra equipes com experiências práticas em enfrentar adversidades e consegue ter reflexos ativos, mais adaptáveis.

Podemos entrar nesse domínio por escolha própria buscando uma inovação disruptiva, pois ele permite mudanças radicais. Mas também podemos flutuar entre ele e o domínio complexo, o que pressionará a equipe para ter movimentos rápidos e estabilizar a situação.

Mas chamo a atenção para outra forma de entrar no caos, que é caindo no “abismo” do domínio simples direto para o domínio caótico. Muitas empresas se permitem uma acomodação tão intensa em seus setores que perdem a visão holística de toda movimentação do mercado e isso pode causar essa transição para o caos, como ocorreu com muitas empresas que não conseguiram realizar a transformação digital na velocidade demandada, e acabaram falindo ou perdendo valor de mercado.

Desordem

No domínio da desordem estão os sistemas não categorizados, nos quais não conseguimos entender ou conhecer os problemas e desafios enfrentados. Essa é uma luta invisível que, ao se tornar conhecida, ganha espaço em um dos demais domínios.

--
Para concluir esse artigo, deixo com você a reflexão: como o framework Cynefin poderá ajudar você e seu time a tomar melhores decisões em sua organização?

Rafael Wild
Rafael Wild
Agile Coach Campus Inc